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Deep fake desafia a confiança no que estamos vendo, afirma professor da UFC

Image by rawpixel.com

Em 2018, o mundo se chocou com um vídeo onde Barack Obama falava, mas que no final se descobriu que era uma manipulação computacional onde o ator e diretor Jordan Peele passava uma mensagem: o deep fake já era possível. Com essa tecnologia de aprendizado de máquina (machine learning), Deep Learning, programação (python em especial) e Inteligência Artificial (IA) já era possível criar uma persona falando o que você quisesse. O temor de muita gente estava saindo do campo da ficção científica e virando uma chocante realidade.

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De lá pra cá, muita coisa mudou e evoluiu e as técnicas foram sendo aprimoradas. Segundo o professor doutor do Departamento de Computação da Universidade Federal do Ceará (UFC), César Lincoln Cavalcante Mattos, garante que essa tecnologia se tornou ainda mais perigosa por dois motivos: maior qualidade das falsificações e maior acesso a ferramentas de criação e compartilhamento desse tipo de conteúdo. “O primeiro ponto desafia a confiança exclusiva na percepção audiovisual. O segundo resulta em um volume e uma capacidade de alcance difíceis de controlar, seja pelas plataformas por onde o conteúdo é difundido, seja pelos governos. Além disso, a crescente organização social em bolhas de informação com o efeito câmara de eco, impulsionado também por algoritmos de IA, amplifica o impacto negativo desse material de desinformação”, garante Mattos.

Cesar Lincoln, professor doutor da UFC

Segundo o professor doutor, grandes empresas, como Facebook e Microsoft, têm procurado desenvolver soluções para detecção automática de deep fakes, mas ainda possuem acesso restrito. “Há algumas ferramentas de checagem online, como o deepware, mas é preciso reconhecer que a pesquisa de métodos de detecção de conteúdo falso caminha atrasada em relação ao avanço na geração desse material. Com relação a deep fakes em vídeo, existem algumas pistas visuais que podem auxiliar na detecção: deformações na pele da face, barba, olhos e sobrancelhas; cor e tamanho dos lábios inconsistentes; frequência inesperada do piscar de olhos; reflexos estranhos em óculos e superfícies espelhadas. No entanto, a checagem da credibilidade da fonte de informação ainda é o meio mais eficaz”, afirma.

Acrescento que, infelizmente, quanto menor a resolução do vídeo, mais difícil fica para atestar a veracidade ou não. Sendo assim, os criminosos podem reduzir propositadamente a qualidade da produção para dificultar ou até impossibilitar que autoridades e imprensa consigam analisar o vídeo e provar que ele é falso.

Cesar Lincoln, professor doutor da UFC, e equipe

Como o objetivo é destruir pessoas, empresas e instituições através da dúvida e da mentira, ao não se conseguir atestar a veracidade ou não do vídeo, gerando uma dúvida razoável, os criminosos já ganharam a batalha.

Mas então, como podemos combater o deep fake que pode causar danos irreparáveis para pessoas e organizações? Mattos responde que deep fakes atingem diretamente nossos sentidos, que passam a ser ainda menos confiáveis. Por esse motivo, a principal saída ainda é a verificação das fontes onde aquele conteúdo foi acessado. “A preferência por jornais, revistas, sites e produtores de conteúdo de reputação reconhecida torna-se crítica, pois seus profissionais estão aptos a comprovar o material gerado e circulado, inclusive com recursos fora do meio digital”.

Infelizmente, em eras como a atual, onde a mentira é cada dia mais elaborada e atrativa. Onde redes sociais e comunicadores instantâneos tem mais poder que a imprensa, conseguir convencer o cidadão de que o vídeo enviado pelo tio dele é mentira é bem complicado.

“A resposta precisa vir de múltiplos lados. Além da maior informação sobre a existência e caracterização desse fenômeno, é preciso pressionar os meios em que esse material é difundido para que as regras de violação de conteúdo sejam firmes e de fato postas em prática”, disse o professor doutor da UFC.

Ainda segundo Mattos, o problema é especialmente grave porque poucas pessoas influenciadas por uma deep fake já é o suficiente para pautar discussões baseadas exclusivamente em desinformação. “Assim, é preciso também agir localmente, auxiliando amigos, colegas de trabalho e familiares a verificarem conteúdos recebidos, especialmente antes de compartilhá-los”, informou o professor doutor.

Mattos ressalta também que o combate individual, a cada conteúdo falso circulante, é inviável para entidades como tribunais, partidos e imprensa. “Esse tipo de ação é responsabilidade das plataformas por onde o conteúdo é compartilhado. Mesmo que remoções pontuais motivadas por questões jurídicas sejam importantes, esse procedimento não é escalável”. E complementa: “o confronto mais amplo pode vir a partir da educação sobre o fenômeno, ainda desconhecido por muitos. A imprensa deve focar na checagem offline sistemática de informações e se colocar como agentes contrários à desinformação. O maior desenvolvimento de áreas como computação forense, que devem ter maior presença nas organizações, também é fundamental”, garantiu.

Por fim, de acordo com Mattos, o desenvolvimento tecnológico e o avanço das técnicas de aprendizado de máquina e IA não vão parar. Por conta disso, é preciso haver um esforço continuado por parte do poder público e do setor privado para que os problemas causados pelas deep fakes sejam contidos. “A comunidade acadêmica também possui o seu papel, contribuindo com pesquisas sobre as técnicas usadas, estudos sobre as redes de difusão de desinformação, e divulgação científica sobre o tema. A sociedade do consumo de informação em fluxo contínuo, criada e alimentada pelas redes sociais, é um perigoso ambiente para experimentos sociais em larga escala. Os maiores efeitos ainda são desconhecidos e, por isso, o problema deve ser enfrentado com a seriedade e urgência que exige”, finalizou.

Certamente as coisas estão evoluindo muito rapidamente para que tenhamos um problema grave oriundo de uma deep fake como já tivemos com as fake news. Políticos serão eleitos por conta disso, tratados serão sacramentados ou desmanchados por conta de mentiras e armações. A sociedade da pós-verdade está fadada a um fim trágico se continuar consumindo sem fazer a devida análise e crítica do que está recebendo. O contraponto é fundamental.

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